Os cinco maiores erros das empresas na adoção do modelo híbrido

Menosprezar a pandemia e não confiar na capacidade de autogestão do colaborador estão entre os erros que as empresas devem evitar se quiserem ter sucesso na implementação do trabalho híbrido

Por Mário Verdi*

Quais são os principais erros que as empresas devem evitar na migração para o trabalho híbrido? O modelo — que, segundo uma pesquisa da Microsoft divulgada em março, é hoje almejado por 58% dos trabalhadores brasileiros — é, em muitos casos, consequência do home office adotado às pressas no início de 2020, com o estouro da pandemia; e, não raro, acaba sendo implementado com pouca organização ou planejamento.

Acontece que os dois últimos anos mudaram a mentalidade de boa parte dos trabalhadores: hoje, 71% dos brasileiros priorizam a saúde e o bem-estar acima do trabalho, segundo revelou a mesma pesquisa da Microsoft. O estudo mostrou também que 38% dos respondentes consideram a flexibilidade de horários uma das características mais importantes nas empresas atualmente, enquanto 40% procuram senso de propósito em seus empregos, e 46% desejam trabalhar em uma companhia com uma cultura empresarial positiva.

Para que o híbrido vá ao encontro das novas prioridades dos trabalhadores — e não acabe sendo apenas uma obrigação vazia na rotina dos funcionários —, listamos os cinco maiores erros a evitar na migração para o modelo. Confira:

1.Achar que tudo vai ser igual a antes

A pandemia evidenciou a possibilidade de separar o trabalho em duas grandes dimensões: tarefas que demandam interação e tarefas que demandam foco. Ou seja, as motivações para ir ao escritório agora são outras. Para que o espaço físico da empresa seja uma ponte para a colaboração entre as pessoas, ele deve ser redesenhado para privilegiar esses encontros, sempre levando em conta que agora teremos participantes presenciais e remotos.  É um erro achar que as pessoas irão ao escritório para fazer tarefas que demandam apenas foco, sentando no mesmo local e trabalhando individualmente em seu computador. O desafio é organizar a estrutura física das empresas para receber profissionais acostumados a essas novas práticas de trabalho, além de tornar o escritório um local acolhedor e atrativo.

2.Não confiar na capacidade de autogestão do colaborador

Sempre existirão os maus profissionais, mas eles sempre serão minoria — e punir a maioria com regras e processos burocráticos por causa da minoria é um grande problema de gestão de pessoas. A busca do microgerenciamento é justamente um dos maiores erros do modelo híbrido. Na verdade, em vez de pensar que os funcionários não cumprirão adequadamente as suas tarefas quando não estiverem no escritório, o gestor precisa ficar atento para o risco invertido: o modelo híbrido derrubou as fronteiras da jornada de trabalho e, com isso, muitos profissionais acabam trabalhando em demasia, podendo sofrer o famoso burnout.

3.Desvalorizar a opinião e as necessidades dos funcionários

Um ambiente mais colaborativo e uma rotina mais flexível pedem mais trocas de informações e uma maior capacidade de ouvir a todos — não só para deixar claras as regras e processos da companhia em relação ao novo modelo de trabalho, mas também para saber o que cada funcionário pensa a respeito. Algumas pessoas se sentem mais produtivas em casa, outras, no escritório. Algumas não têm uma estrutura adequada para trabalhar de casa, e vão precisar frequentar o escritório mais vezes por semana. Outras moram longe, e vão preferir evitar o deslocamento e o trânsito sempre que possível. Levar em conta as necessidades e individualidades de todos é essencial no novo contexto.

4.Tomar decisões top-down e desalinhadas com a cultura da empresa

O mundo corporativo é cheio de histórias de empreendedores visionários, com foco e determinação, mas, muitas vezes, imprevisíveis e temperamentais. Hoje, essa cultura não é mais admirada ou exaltada: os líderes com este perfil são considerados tóxicos, pois conduzem os negócios e as ações de forma errática e intranquila. O ambiente do trabalho híbrido acaba reforçando o comportamento em quem tem essa tendência, pois muitos líderes temem não estar no controle da situação. Tomar decisões imperativas e antipáticas à cultura da empresa, porém, pode resultar em queda de produtividade e perda de talentos. O ideal é guiar as decisões com base nos pilares da cultura organizacional, e sempre levando em conta as opiniões e os feedbacks dos colaboradores, por meio de pesquisas e de canais abertos e seguros de comunicação.

5.Menosprezar a pandemia

Claro que há questões quanto ao tema da pandemia que cabem somente a especialistas em saúde discutir. Mas é possível observar mudanças nas relações de trabalho nesse período: a crise sanitária deixou lições valiosas quanto a cuidados que podem, inclusive, prevenir outras doenças contagiosas. A atenção das empresas quanto à saúde dos colaboradores pode, inclusive, ir além da parte física: mais do que nunca, as companhias devem estar atentas à saúde mental de seus funcionários, adotando práticas que impactem positivamente o dia a dia e o bem-estar dos trabalhadores. Novamente, é importante respeitar as individualidades: se há alguém que ainda se sente desconfortável frequentando lugares fechados ou na companhia de outras pessoas, é preciso levar isso em conta na hora do planejamento de demandas, reuniões e eventuais escalas de trabalho presencial.

*Mário Verdi é CEO e fundador da Deskbee, plataforma especialista na gestão do trabalho híbrido, com mais de 300 clientes corporativos no Brasil e em países como Estados Unidos, México, Portugal, Inglaterra, Japão e Alemanha

Publicado em Época Negócios

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